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Nova Ordem Mundial

A economia das transferências de armas: quem vende, quem compra e o que o número não diz

O TIV do SIPRI, o efeito das sanções e a indústria que se beneficia da guerra prolongada

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Redação Nova Ordem Mundial
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7 min de leitura
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7 fontes citadas
Caixas militares empilhadas e ferrugem em um galpão industrial, em tons dessaturados

Em março de 2025, o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) publicou a edição anual de sua folha informativa sobre transferências internacionais de armas, cobrindo o período 2020-2024. O documento, baseado no banco de dados Arms Transfers Database, alimenta boa parte da cobertura jornalística sobre comércio de armamento e serve de referência para governos, pesquisadores e organizações internacionais. No mesmo mês, os números do período anterior, 2019-2023, continuaram sendo usados como base de comparação.

O dado mais reproduzido — a fatia de cada país exportador — depende, no entanto, de um indicador técnico frequentemente mal interpretado. O SIPRI não mede o valor em dinheiro das vendas. Mede volume, por meio do Trend-Indicator Value (TIV). Confundir TIV com faturamento é um erro que distorce tanto análises de mercado quanto debates sobre lucro da indústria de defesa.

Este artigo reconstrói o que a base do SIPRI mede, apresenta os números comparáveis de dois períodos, examina o efeito das sanções sobre a oferta, e discute — com sobriedade — quem ganha e quem perde em conflitos prolongados. Também explicita o que o indicador não captura.

O que o SIPRI mede — e o que o TIV não mede

O TIV é um índice de volume construído a partir do custo de produção de armas pesadas convencionais. Ele atribui um valor a cada tipo de equipamento pesado — aviões de combate, navios, veículos blindados, mísseis, sensores — e o aplica às unidades transferidas. O resultado permite comparar transferências entre países e ao longo do tempo, independentemente de preços de contrato, descontos ou compensações comerciais.

O próprio instituto é explícito: o TIV não representa valor financeiro, nem preços pagos, nem capacidade militar real, e não deve ser somado a estatísticas monetárias de gastos de defesa. Uma mesma remessa pode ter TIV alto e preço baixo — em uma doação — ou TIV baixo e preço alto, caso inclua serviços, treinamento e manutenção.

O TIV é um indicador de volume de transferências de grandes armas, e não um valor financeiro; ele reflete o custo de produção, não o preço pago. — paráfrase da nota metodológica do SIPRI (abre em nova aba)

Há ainda duas limitações importantes. Primeiro, a base registra entregas efetivadas, não pedidos assinados — o que defasa o retrato em relação a contratos recentes. Segundo, ela cobre armas pesadas convencionais e não inclui armas pequenas e leves, munições, componentes e transferências ilícitas, que somam volumes relevantes em zonas de conflito.

Exportadores e importadores: os números de 2020-2024

Segundo a folha informativa de 2025, os Estados Unidos ampliaram sua participação nas exportações globais de armas pesadas para cerca de 43% em 2020-2024, mantendo a liderança consolidada. A França aparece em segundo lugar, com aproximadamente 9,6%, seguida da Rússia, em torno de 7,8% — uma queda expressiva frente a períodos anteriores. China e Alemanha completam o grupo dos cinco maiores, com fatias próximas de 5,9% e 5,6%, respectivamente (SIPRI, 2025 (abre em nova aba)).

Do lado das importações, o número mais chamativo é a Ucrânia, que se tornou o maior importador global do período 2020-2024, respondendo por cerca de 8,8% das importações mundiais — resultado direto das doações militares após fevereiro de 2022. As importações europeias, no conjunto, cresceram de forma acentuada entre os dois períodos, tendência associada à recomposição de estoques e ao aumento de gastos de defesa.

A comparação entre os dois períodos mostra como o quadro muda:

Indicador2019-20232020-2024
Maior exportador (EUA)cerca de 42%cerca de 43%
Segundo exportadorFrança (cerca de 11%)França (cerca de 9,6%)
Terceiro exportadorRússia (cerca de 11%)Rússia (cerca de 7,8%)
Maior importadorÍndiaUcrânia
Tendência europeiaalta moderadaalta acentuada (importações +155% frente a 2015-2019)

Os valores de participação são aproximações publicadas pelo instituto e podem variar conforme revisões da base. A leitura correta é de tendência, não de precisão decimal.

Sanções, embargo e a reorganização da oferta

As sanções afetam o comércio de armas por caminhos diferentes. Restrições financeiras dificultam pagamentos; controles de exportação bloqueiam componentes; e o risco reputacional afasta compradores que temem retaliação secundária. No caso russo, o efeito combinado aparece nos dados: as exportações de armas caíram de forma acentuada entre os períodos, reflexo não apenas das sanções, mas também da prioridade dada ao reabastecimento do próprio esforço de guerra e da perda de confiabilidade percebida por clientes tradicionais (Conselho da UE (abre em nova aba)).

Ao mesmo tempo, sanções raramente eliminam o comércio — redirecionam-no. Países sob embargo buscam fornecedores alternativos, e intermediários surgem para contornar restrições. Por isso a comparação entre o registro voluntário de armas da ONU (UNROCA (abre em nova aba)) e a base do SIPRI é útil: os dois conjuntos não coincidem, e as lacunas indicam tanto subnotificação quanto transferências não declaradas.

Sanções raramente eliminam o comércio de armas; elas tendem a redirecionar fornecedores e a aumentar o peso de intermediários e de canais alternativos. — síntese analítica a partir do Conselho da UE (abre em nova aba) e do SIPRI (abre em nova aba)

Esse deslocamento aparece de forma indireta nos dados: enquanto as exportações russas recuam, cresce a fatia relativa de fornecedores que ocupam o espaço deixado, e o registro voluntário da ONU mantém lacunas que a base do SIPRI não resolve, porque mede apenas armas pesadas e não as pequenas e leves.

A economia da guerra prolongada

A indústria de defesa não depende de uma guerra específica, mas se beneficia da percepção de ameaça persistente. Conflitos prolongados aumentam a demanda por reposição de estoques, elevam os orçamentos militares e alongam as carteiras de pedidos. A base de gastos militares do SIPRI permite observar essa dinâmica: o gasto global de defesa atingiu patamares recordes na primeira metade da década, com crescimento concentrado em Europa e Ásia (SIPRI (abre em nova aba)).

Quem ganha é sobretudo o exportador com capacidade industrial instalada e cadeia de suprimentos madura — posição ocupada pelos Estados Unidos no período analisado. Quem perde, além das populações civis, são os países importadores que passam a destinar parcela maior do orçamento a equipamento militar, reduzindo espaço fiscal para outras áreas. Empresas de defesa de capital aberto registram aumento de receita e de carteira, mas o efeito sobre o lucro líquido varia com custos de produção, gargalos de insumos e prazos de entrega, que se alongaram no período. O efeito fiscal é um dos mais documentados: quando países elevam a fatia do PIB destinada à defesa, parte do aumento se converte em encomendas externas, transferindo recursos de economias importadoras para economias exportadoras. Metas de gasto pactuadas em alianças, como o patamar de 2% do PIB discutido no âmbito da OTAN, funcionam como referência política para esses movimentos e aparecem refletidas na base de gastos militares do instituto (SIPRI (abre em nova aba)).

Conflitos prolongados elevam a demanda de reposição de estoques e alongam as carteiras de pedidos da indústria, sem que isso se traduza automaticamente em lucro imediato. — síntese analítica a partir de SIPRI (abre em nova aba)

Contra-argumentos e o que os dados não mostram

A crítica técnica central ao uso público dos dados é que o TIV não mede dinheiro. Reportagens que multiplicam participações percentuais por valores de mercado obtêm números que não existem na base. Outra limitação é a cobertura: armas pequenas, drones adaptados e munições — decisivos em conflitos recentes — não entram na contagem como itens principais, o que subestima a importância de certos fluxos. A base também trata doações e vendas sob o mesmo indicador de volume: uma transferência doada e uma vendida, com o mesmo equipamento, aparecem com o mesmo valor de TIV, o que impede usos comparativos de custo. Para o debate sobre lucro da indústria, o dado mais adequado continua sendo o de resultados financeiros das empresas, e não o de volume de equipamento entregue.

Há também a questão da finalidade. A mesma transferência pode ser venda comercial, doação, arrendamento ou transferência intragovernamental, e a base não diferencia essas categorias de forma que permita isolar o efeito sobre o comércio pago nem estimar quantas dessas remessas geraram receita comercial.

A defesa do indicador é que ele resolve um problema difícil: comparar transferências heterogêneas entre países e anos. Nenhum outro insumo público oferece série tão longa e metodologicamente consistente. Desde o Tratado sobre o Comércio de Armas, de 2013, a transparência se tornou obrigação parcial dos exportadores, e bases como a do SIPRI funcionam como contraponto independente aos registros oficiais.

O que observar

Vale acompanhar três pontos. O primeiro é a trajetória das exportações russas: se a queda observada em 2020-2024 se estabiliza ou continua, e como clientes tradicionais reorganizam suas compras. O segundo é a consolidação da Ucrânia como grande importador — ou sua transição para produção doméstica e cobertura por doações que não passam por fluxos comerciais. O terceiro é o comportamento do gasto militar europeu diante de metas de participação no PIB, um indicador de quanto do aumento de orçamento se converte em transferências registradas.

Nenhum desses movimentos autoriza conclusões apressadas sobre "quem lucra com a guerra". O que os dados permitem afirmar, com segurança, é mais modesto e mais útil: as transferências de armas se concentram em poucos exportadores, são sensíveis a sanções e a conflitos, e seu volume pode ser comparado de forma consistente — desde que ninguém confunda volume com dinheiro.

Fontes e documentos citados

Cada afirmação relevante remete ao documento original. Os links abrem em nova aba.

  1. 1
    SIPRI Arms Transfers Database

    Stockholm International Peace Research InstituteBase de dados

    Base de dados, cobertura 1950 até o presente

  2. 2
    Trends in International Arms Transfers, 2023

    SIPRIEstudo acadêmico

    Período de referência 2019-2023

  3. 3
    Trends in International Arms Transfers, 2024

    SIPRIEstudo acadêmico

    Período de referência 2020-2024

  4. 4
    SIPRI Yearbook

    SIPRIDocumento

    Compêndio anual de dados de armamentos e conflitos

  5. 5
    SIPRI Military Expenditure Database

    SIPRIBase de dados

    Gastos militares por país, em dólares correntes e constantes

  6. 6
    Sanções da UE contra a Rússia

    Conselho da União EuropeiaFonte oficial

  7. 7
    United Nations Register of Conventional Arms (UNROCA)

    Organização das Nações UnidasFonte oficial

    Registro voluntário de importações e exportações de armas

Cronologia do tema

  1. 01/01/1990

    Criação do registro de transferências do SIPRI

    O instituto consolida uma base de dados pública que passa a medir o volume de armas pesadas transferidas entre países.

  2. 01/04/2013

    Adoção do Tratado sobre o Comércio de Armas

    A Assembleia Geral da ONU aprova o ATT, que entra em vigor em dezembro de 2014 e cria obrigações de avaliação para exportadores.

  3. 01/01/2014

    Anexação da Crimeia e primeira rodada de sanções

    Após a anexação da Crimeia pela Rússia, União Europeia e Estados Unidos iniciam pacotes de sanções que afetam o setor de defesa.

  4. 24/02/2022

    Início da invasão em larga escala da Ucrânia

    O conflito acelera doações militares ocidentais e transforma a Ucrânia em um dos maiores importadores de armas do mundo.

  5. 01/03/2024

    SIPRI publica dados de 2019-2023

    No período, os Estados Unidos respondem por cerca de 42% das exportações globais de armas pesadas.

  6. 01/03/2025

    SIPRI publica dados de 2020-2024

    A Ucrânia figura como maior importador do período, os Estados Unidos ampliam a fatia para cerca de 43% e as exportações russas recuam.

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