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Nova Ordem Mundial

O que o Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial realmente diz

Metodologia de percepção, agenda-setting e a distância entre risco percebido e risco medido

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Redação Nova Ordem Mundial
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7 min de leitura
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7 fontes citadas
Salão de cúpula internacional vazio, com fileiras de mesas e placas de identificação sob luz azul fria

Em 15 de janeiro de 2025, poucos dias antes da abertura da reunião anual de Davos, o Fórum Econômico Mundial (WEF) publicou a vigésima edição do seu Relatório de Riscos Globais (Global Risks Report 2025). O documento, com cerca de cem páginas, voltou a circular rapidamente entre ministérios, bancos centrais, seguradoras e departamentos de planejamento de grandes empresas — um público que o usa como material de referência para construção de cenários. O que costuma chegar ao debate público, no entanto, é apenas a lista ordenada de ameaças. A metodologia, a redação das definições e a origem das respostas raramente são discutidas com o mesmo destaque.

O relatório não mede riscos no sentido estatístico ou atuarial do termo. Ele ordena percepções. A base é a Pesquisa de Percepção de Riscos Globais (Global Risks Perception Survey, GRPS), aplicada a uma rede de especialistas ligada ao próprio Fórum. Entender essa distinção — entre o que um grupo qualificado de pessoas teme e o que bases de dados independentes efetivamente registram — é o ponto de partida para ler o documento com proveito e sem exagero, em qualquer direção.

Este artigo reconstrói o que o Global Risks Report efetivamente afirma, descreve como a pesquisa é construída, separa risco percebido de risco medido, e apresenta tanto a crítica de que o relatório é auto-referente quanto a defesa de que ele cumpre uma função legítima de definição de agenda. Ao final, compara o documento com a agenda internacional de desenvolvimento e indica o que observar nas próximas edições.

O que o documento afirma

A edição de 2025 organiza os riscos em dois horizontes. No curto prazo (dois anos), o topo da lista combina informação e conflito: desinformação e informação falsa aparecem em primeiro lugar, seguidas de eventos climáticos extremos, conflito armado entre Estados, polarização social e espionagem e guerra cibernéticas. No horizonte de dez anos, os riscos ambientais dominam, com eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas, mudanças críticas nos sistemas terrestres, escassez de recursos naturais e poluição ocupando a maioria das primeiras posições.

O relatório também classifica os riscos por severidade e probabilidade, e reserva uma seção para as conexões entre eles — a ideia de que riscos não atuam isoladamente. O documento usa a expressão "policrise" para descrever situações em que crises simultâneas interagem e se reforçam. Essa moldura conceitual é, por si só, uma escolha analítica: ao agrupar temas, ela sugere quais respostas institucionais são prioritárias.

"Risco global" é definido no relatório como a possibilidade de ocorrência de um evento ou condição que, se materializado, causaria impacto negativo significativo sobre o PIB global, a população ou os recursos naturais. — síntese de definição apresentada no WEF, 2025 (abre em nova aba)

Uma das características mais citadas da edição de 2025 é a inversão de ênfase: pela primeira vez em vários anos, um risco informacional lidera o curto prazo, à frente de riscos econômicos e climáticos. A escolha reflete, em parte, o peso dado por respondentes de países com eleições recentes ou próximas — o que conecta o ranking ao calendário político global.

Como funciona a metodologia de percepção

A GRPS é aplicada anualmente a um conjunto de respondentes recrutados sobretudo dentro da rede do Fórum: comunidades multissetoriais, líderes de risco corporativo, acadêmicos, representantes de governos e de organizações internacionais. Cada participante avalia um conjunto de riscos em escalas como probabilidade e severidade para diferentes horizontes temporais. As respostas agregadas geram os rankings publicados.

A amostra tem ordem de grandeza de aproximadamente 900 respondentes na edição de 2025, concentrados em economias avançadas e em grandes economias emergentes. Não é uma amostra probabilística da população mundial, e o relatório reconhece isso de forma explícita: trata-se de um exercício de julgamento especializado, não de uma medição estatística.

As respostas refletem a percepção dos entrevistados e não devem ser interpretadas como previsões nem como medidas objetivas de probabilidade. — paráfrase de ressalva metodológica do WEF, 2025 (abre em nova aba)

Esse desenho tem consequências práticas. Um risco pode subir no ranking porque mais respondentes passaram a prestar atenção nele, sem qualquer mudança correspondente em sua frequência observada. E um risco pode permanecer estável e verificável — como mortes por determinada doença — sem ganhar posição, caso não esteja na agenda do momento.

Risco percebido não é risco medido

A diferença entre percepção e medição aparece com clareza quando os rankings são confrontados com bases de dados. Mortalidade e morbidade são registradas por sistemas de estatística sanitária; desastres naturais são contabilizados em bases como as mantidas por escritórios de estatística e por resseguradoras; conflitos armados são quantificados por projetos acadêmicos de contagem de eventos. Nenhum desses conjuntos coincide com a ordenação da GRPS.

O caso mais ilustrativo é o da desinformação, que liderou o curto prazo em 2025. É difícil medir desinformação de forma padronizada: não existe uma unidade única comparável entre países, e as métricas disponíveis dependem de plataformas privadas que não publicam dados auditáveis de forma consistente. O risco é percebido como altíssimo e, ao mesmo tempo, pouco mensurável — o que não o torna irrelevante, mas obriga a tratar a afirmação com cautela.

A tabela abaixo compara o topo do ranking de curto prazo em duas edições consecutivas, ilustrando como a percepção se move de um ano para o outro.

PosiçãoRiscos de curto prazo (2 anos) — 2024Riscos de curto prazo (2 anos) — 2025
1Desinformação e informação falsaDesinformação e informação falsa
2Eventos climáticos extremosEventos climáticos extremos
3Polarização socialConflito armado entre Estados
4Insegurança cibernéticaPolarização social
5Conflito armado entre EstadosEspionagem e guerra cibernéticas

A estabilidade dos dois primeiros lugares contrasta com a entrada de um risco de segurança no pódio, movimento compatível com o aumento de conflitos interestatais observado no período, mas também com a saliência midiática desses eventos.

A objeção da auto-referência

A crítica mais recorrente ao documento é circular: o Fórum aparece simultaneamente como quem diagnostica o risco e como parte da resposta proposta. O relatório descreve cenários de fragmentação e crises e, nas seções de recomendação, apresenta a cooperação multissetorial — modelo do próprio Fórum — como caminho preferencial. Respondentes da pesquisa, por sua vez, são recrutados em grande parte dentro da rede do Fórum.

A cooperação entre setores público e privado é apresentada no documento como resposta central, o que aproxima a análise da própria proposta institucional do Fórum. — leitura editorial crítica a partir do texto do WEF, 2025 (abre em nova aba)

Há um segundo aspecto da crítica: como o relatório é publicado às vésperas de Davos, ele funciona também como enquadramento da própria reunião anual. Os temas que sobem no ranking tendem a virar mesas e painéis em Davos, o que reforça o caráter de agenda-setting do exercício (cobertura de agência, AP (abre em nova aba)).

Contra-argumentos e o que os dados não mostram

A defesa do relatório tem argumentos sólidos. Primeiro, o documento é transparente quanto à natureza perceptiva da pesquisa: não afirma prever o futuro nem medir probabilidades. Segundo, registros de risco baseados em julgamento especializado são prática comum — instituições públicas mantêm cadastros nacionais de risco e normas de gestão de risco usam escalas qualitativas semelhantes. Terceiro, o valor de agenda-setting é real: o relatório alimenta discussões em bancos centrais, reguladores e seguradoras, e a antecipação de riscos tem efeitos concretos sobre planejamento.

Também é preciso notar a relação com a Agenda 2030 das Nações Unidas. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, adotados em setembro de 2015 com 169 metas, oferecem um arcabouço mensurável — e o próprio acompanhamento oficial mostra desempenho desigual. Segundo o relatório de acompanhamento da ONU, uma parcela minoritária das metas estava no caminho certo em meados da década, enquanto quase metade apresentava progresso fraco ou insuficiente (ONU, 2024 (abre em nova aba)). Ou seja, ao lado dos riscos percebidos do WEF existe um sistema de medição verificável com resultados modestos.

O que os dados não mostram é igualmente importante. A GRPS não permite inferir probabilidade, magnitude financeira esperada nem distribuição geográfica precisa de impacto. Ela não substitui indicadores oficiais. E o ranking publicado não distingue, com rigor, riscos que ameaçam diretamente a vida e riscos que ameaçam arranjos institucionais — duas coisas de natureza diferente colocadas na mesma escala.

O que observar

Alguns pontos merecem monitoramento nas próximas edições. Vale acompanhar se a desinformação mantém a liderança de curto prazo ou se o efeito eleitoral se dissipa; se riscos de conflito interestatal permanecem no pódio; e como o relatório reorganizará seus horizontes temporais diante das críticas metodológicas. Também é relevante observar a composição do painel de respondentes, o grau de abertura dos dados brutos da pesquisa e a distância entre o que o documento recomenda e o que efetivamente consta das declarações finais de Davos.

Por fim, o uso do relatório por bancos centrais e seguradoras é um sinal de que ele tem função operacional, não apenas retórica. Isso não elimina a crítica da auto-referência, mas indica que o documento deve ser lido como instrumento de definição de agenda — influente, verificável em suas premissas e limitado em suas conclusões — e não como medição objetiva de perigo.

Fontes e documentos citados

Cada afirmação relevante remete ao documento original. Os links abrem em nova aba.

  1. 1
    Global Risks Report 2025

    World Economic ForumDocumento

    20ª edição, arquivo em PDF, cerca de 100 páginas

  2. 2
    Global Risks Report 2024

    World Economic ForumDocumento

    Edição usada para comparação de rankings

  3. 3
    Global Risks Report — edições anteriores

    World Economic ForumDocumento

    Índice histórico das edições

  4. 4
    Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development

    Organização das Nações UnidasFonte oficial

  5. 5
    The Sustainable Development Goals Report 2024

    Divisão de Estatística das Nações UnidasBase de dados

    Acompanhamento anual dos 17 ODS

  6. 6
    Annual Meeting 2025 (Davos)

    World Economic ForumFonte oficial

  7. 7
    Davos — hub de cobertura

    Associated PressImprensa

    Cobertura de agência da reunião anual

Cronologia do tema

  1. 01/01/1971

    Fundação do Fórum Econômico Mundial

    Criado em Genebra como Fórum de Gestão Europeu, o Fórum se torna uma plataforma permanente de encontro entre empresas, governos e academia.

  2. 01/01/1987

    Adoção do nome atual

    A organização é rebatizada como World Economic Forum e consolida a reunião anual de inverno em Davos, na Suíça.

  3. 01/01/2006

    Primeira edição do Global Risks Report

    O relatório passa a ser publicado anualmente, com base em uma pesquisa de percepção aplicada a especialistas da rede do Fórum.

  4. 01/09/2015

    Adoção da Agenda 2030 e dos 17 ODS

    A Assembleia Geral da ONU aprova 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e 169 metas, com horizonte em 2030.

  5. 01/01/2020

    Pandemia entra na lista de riscos

    A edição de 2020 já posicionava doenças infecciosas entre os riscos de maior impacto, semanas antes da eclosão global da covid-19.

  6. 15/01/2025

    Publicação da 20ª edição

    A edição de 2025 coloca a desinformação no topo do horizonte de dois anos e concentra os riscos de dez anos na área ambiental.

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